terça-feira, 30 de setembro de 2025

ziquizira 9



significado que se perfaz

                                 ambíguo pormenor

                                 d’um ato de liberdade

                                                       [ consciente…




na poesia, (re)começando

                   do seu próprio exercício,

estranhas platitudes,

porém serenas,

(ir)realizam-se nas abissalidades 

                                 [ d’alma…




… e nos impõem palavras-coisas

                                              no espaço-tempo

                             verdades e mentiras

                                                  objetivadas 

                                                  moto-contínuo de si mesmas

                             verbivocovisualidades metodologicamente engendradas

                                                                      e, 

                                                                      contraditoriamente,  

                                                                      a esmo

inominadas




ah, perdição!... se é dor,

por que a palavra é pura e perfeita?

ah, dúvida(s): se é labirinto,

por que a palavra faz-se ecos

que (res)soam e chamam o tempo inteiro?

ah, destino!... se não é aborto,

por que a palavra subordina um léxico inteiro?




# esparramando estrelas no céu - 2011


domingo, 28 de setembro de 2025

signa 7

 

perdido, nos descaminhos da vida, 

vai… perdido, de encruzilhada em encruzilhada,

vai… prá onde bater o vento,

há de ser sua morada, vai!




perdido,  meio menino peralta,

meio maquinista maluco

d’um trem invisível

                [ trilhos a arranhar estrelas

locomotivando cirandas infindáveis

e destinos indizíveis, 

perdido, 

mas, vai…




perdido, vai ocupando espaços e lugares… 

eternos… labirintos d’uma vida que roda!

cidades a girar, povoados a faiscar, 

corrutelas a defenestrar…

ah, paisagens estranhas… perdido, vai.

dias penosos, florestas-galeria virgens … perdido, vai.

ecos dos próprios passos… veredas em flor…

sol no rosto… pólen nos cabelos… 

perdido, vai!




    alma vai

            [ penada

vai buscando a amplidão

    perdido vai

                [ na própria alma

                                  [ suave 

                                    [ em doce emanação!




# vieste comigo? - 1990


raca 8



labirintos [ em ti mesmo confusos

labiríntico alter ego [ outro

olhares espreitando

penumbras de raivas

ou passados raivosos?




crepúsculos [ em mim mesmo infindáveis

crepuscular super ego [ outro

esbatidos universos

fados que se oferecem

ou rastros apagados?




não sou tu, nem eu

não sou mim, nem ti

não sou um, não sou outro

não sou dois, não sou caminho

não sou passos

não sou pés, não sou poeira

em alma(s) não te vejo

( não ) te vejo, ( não ) sou eu!




e segues brincando pela vida

e sigo te invejando, ó traquinas

e segues em mim habitando

e sigo te negando como inquilino

e segues me existindo

e sigo te vivendo

e, mal me disfarçando no espelho, 

se digo que sou tu, 

tu, te vendo em reflexos das minhas iris, 

podes dizer que és eu?




# id em chamas - 2002

 

emaranhado 37

 


todos

os significados

soltos dos restos das palavras

reduplicados em intersecções de mil reflexos

geminados de pontos retas ângulos e curvas

planos dimensões e miríades de interpretações

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planos dimensões e miríades de interpretações

geminados de pontos retas ângulos e curvas

reduplicados em intersecções de mil reflexos

soltos dos restos das palavras

os significados

todos

todas

as palavras

soltas dos restos dos significados

reduplicadas em intersecções de mil reflexos

geminadas de pontos retas ângulos e curvas

planos dimensões e miríades de interpretações

================================

planos dimensões e miríades de interpretações

geminadas de pontos retas ângulos e curvas

reduplicadas em intersecções de mil reflexos

soltas dos restos dos significados

as palavras

todas




# tears for fears - 2000


sábado, 27 de setembro de 2025

para trás



imutável diáfana luz:

                 jazigo e perpasse.




e o sonho está 

          [ justo agora

revirado no descarrilado sono?




arco-reflexo: vislumbre de, ao acordar, 

              olhar-se no espelho

              e refletir-se nas auras

                                [ d’outro tempo…




diáfana luz… obscuro momento!




obscuro momento… medo de ser

                 ( medo de mal existir )

                 medo de tentar

                 ( medo de malograr )!




arco-reflexo: vislumbre de,

refletido nas auras d’outro tempo,

              olhar para trás

              e os próprios rastros metafísicos

                                    [ constatar…




# ice hurricane - 2013


sexta-feira, 26 de setembro de 2025

untitled 0


o mar?... sereno, sobe e desce,

desce e sobe, sobe e desce,

no embalo das próprias vagas.

borda a praia de espumas,

alveja a areia com suas águas,

marca o tempo com seu sal!




eu?... aconchego gaivotas, atobás, 

trinta-réis e fragatas em meus olhos,

voando rotas secas, certeiras e vazias,

além e través do horizonte…

algum marco ficará na transitoriedade

                                         [ da memória?




o mar?... bafeja a eternidade, 

arrastada pelos ventos portulanos,

em fátuo silêncio anunciada.

transfigura das divindades o ohm, 

absoluto, sidéreo, 

hermético e instantâneo!




eu?... bebo do mar 

                         [ quieto.

aos raios do sol, funâmbulo, 

                              dispo do corpo 

                                               [ macabro.

morro da vida 

                  [ realizado

                    [ equilibrando-me em um perpasse de sonho

                                                                               [ teso!




# pomposos e surreais - 1977


leva-e-traz 22


olho que se revira!

é meu.

e, no olho do outro,

encontra seu reflexo.

silenciosas flâmulas

                   [ coloridas

movem-se nos olhos

à medida 

que nos movemos.




flâmulas!... fingidas,

ou reais, nos reflexos?!?!

nos olhos do outro

acabei de perpassar,

nos meus olhos o outro

acabou de perpassar,

nossas íris em revoada

trescalaram como loops

                              [ de pássaros…




voo coeso: entre o sol 

                  e a terra.

voo coeso: nem tanto às alturas,

                  nem tanto às profundezas.

voo coeso: flâmulas, coloridas,

                  que vem e vão,

                  brandas, suaves, como de asas um ruflar…




e olhamos, então,

um para o outro, extasiados,

e sem temor algum

balbuciamos: _ ave, irmão!




# comigo & contigo - 2008


sofisma 7

                          => mote: música “Esmeralda” (Filadelfo Nunes e Fernando Barreto)



eu, calçando meias pretas cerzidas,

par de botinas “mateira”,

vestindo calça e paletó em linho branco,

desenhando bichinhos no caderno sem pauta,

coletando flores silvestres no chapéu panamá…




Maria, racha lenha! 

usa avental quadriculado.

já resmunga: _ tem trabaio não?




eu, já pensando no licor fresquinho,

apanhando as melhores jabuticabas no pé…

ah, amanhã vou comer porco recheado de chuchu

                                                                  [ em calda de caramelo!




Maria, empilha lenha pro forno!

varre o chão com piaçava.

já resmunga: _ tem trabaio não?




eu, deitando na cama bem macia.

me aconchegando nos travesseiros com fronhas de seda.

(risos)... vou dormir a tarde inteirinha…




Maria, veste camisola de renda!

passa cheiro de penteadeira no corpo todo!

já resmunga: _ tem ômi não?




# hora do espanto -  2010


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

gesto 11


a ciciante água esverdeada

ondeando os barrancos arriçados;

dedo em riste apontando a sexy Uiara,

as enfezadas matas escuras 

e as árvores verticalmente geométricas

                                                [ como as catedrais…




peixes-bois, ariranhas e capivaras nadando:

dedo em riste apontando as mecânicas correntezas,

o indolente rio, as funâmbulas garças 

e os alvos bancos de areia,

horizontalmente geométricos

                               [ como as plataformas d’um cais…




o uirapurú cantando seu mundo interior;

dedo em riste apontando as onças pintadas,

as cunhãs espantadas com os pênis dos curumins,

minusculamente geométricos

                               [ como raros cristais.




e o céu embuçado, perdido em penumbras,

dedo em riste apontando o boitatá, 

emergindo no meio do fogo-fátuo,

escamas se alongando junto ao gosmento corpo,

afiadamente tensas e geométricas

                                        [ como fatais espadas de samurais.




# will you never let me - 2009